SAMBA COLOURS E GUILHERME CURI (Por Aleksander Aguilar)

No trajeto que corta quatro estados do Nordeste entre Recife e Fortaleza escutei o recém lançado disco do Guilherme Curi, SAMBA COLOURS, várias vezes. Ouvia falar ao Sul do Sul, e via cacto, urubu, coqueiro, caatinga, coco verde, sol descendente às 4 da tarde Nesse caminho contrastante, pensava: se eu não fosse de lá, me perguntaria onde ele fica, esse tal de Sul. Sim, é música do Sul. O Guiga (amigos que somos, confesso que me é difícil dizer o nome inteiro!) é geralmente do Sul, e particularmente dos portos. Dos portos em geral. No seu primeiro disco solo e autoral, tem consciência artística moldada e lapidada por muita exposição passiva e ativa aos sons das periferias de Dublin, do cartão postal do Rio e dessas quebradas portuárias do Sul. Aquele mistério sulista é evidenciado por ele também como a terra do samba, da bossa, do jazz. Sim, pois o Sul do sul, onde o mar também é pampa, é imensidão. SAMBA COLOURS é um disco de imensidões bem ritmadas.

Porque também é porto. Tem África, negro, batuqueiro, macumbeiro. Tem milonga. Há mais samba no Sul do Sul do que no Norte-Nordeste. É a África que nos une? Para Guilherme Curi, a música quem vem do mar nasceu na África e deságua nos portos todos que nos interligam. As diversas colorações desses portos são manifestas no cosmopolitismo marginal de ritmos sofisticados que se recortam de maneira deleitosa entre tambores simples, acordes complexos, pianos, metais e línguas. Há uma mistura de línguas tal qual a de batidas. Aprender língua é aprender cultura, fazer música é destrinchar influências. Guilherme Curi é artista honesto, a conhecida fórmula da mistura é explícita. O Sol, incertezas existenciais, celebrações de origens culturais, o retorno, o amor-dor são temas trabalhados em letras, consonante com sua jornada, expressas em inglês e português com genuinidade típica, por vezes quase ingênua, despudoradamente aberta.

De comentários específicos, há uma coerência cativante no conjunto do álbum, em que apenas destoa a faixa “Fallen Wings”, excelente indie rock, digno de uma obra de Radiohead, mas que parece tangenciar o sentido geral do restante do trabalho. Outra faixa, “Em busca do Sol”, é gentil e convidativa, perdendo também coesão por conta da tentativa de uma alteração melódica com a entrada súbita de uma bateria que afeta a canção negativamente. Muito positiva é a capacidade do disco de envolver, de colocar suas letras e batidas na memória sem malabarismos desnecessários, de fazer o ouvinte querer cantar junto, participar, com o coração aberto como o é seu próprio autor. Guilherme Curi sabe que SAMBA COLOURS não é sua masterpiece, porém reconhece a força da sua navegabilidade, isto é, de traduzir sonoramente as cores das músicas dos portos, percebidas pelos viajantes que buscam as semelhanças nas diferenças, e não o contrário.

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